Não és um rei... e muito menos um deus

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As minhas primeiras recordações de ti estão cheias de confusão, terror e dor.

Ao longo dos anos, pouca coisa mudou. Para além de um pequeno punhado de recordações, as minhas memórias de ti estão cheias de nada mais do que isso

A maior parte do nosso sistema não se lembra de ter recebido palmadas de si... só da sua mulher. Mas isso não foi porque não o fizeste.

Não, era porque fazer isso connosco, e ver-nos chorar, o excitava. Dava-nos "algo para chorar".

Como éramos a tua "princesa", declaraste-te rei e impuseste os teus desejos como lei. A tua mulher estava ansiosa por ajudar a fazer cumprir essa lei e também por criar as suas próprias regras para nós.

O teu serafim inocente e o teu demónio tentador. O anjo e o demónio da vossa mulher. Já, em tão tenra idade, tínhamos quatro papéis entre os dois em casa, no nosso quarto e naquele que os dois partilhavam.

Tínhamos, no máximo, DOIS anos de idade.

E já tínhamos um alter para cada um desses papéis.

Quatro alteres, para o que aconteceu à porta fechada em casa.

Muito menos o que aconteceu aos sábados.

Já para não falar do que acontecia aos domingos de manhã.

Já para não falar de qualquer outra situação que possas transformar nas tuas fantasias retorcidas e doentias.

Nesta altura, já tínhamos mais de quatro alteres.

Mas esses quatro eram o centro das atenções de si e da sua mulher.

Os outros, na sua maioria, podiam ir e vir e fazer o que quisessem enquanto estivéssemos em casa, desde que se comportassem como bons filhos e obedecessem às ordens mais básicas dos pais.

Com o passar do tempo, a sua mulher ficou saciada com os dois e, enquanto todos os outros continuassem a obedecer às suas ordens maternais, ela só faria coisas com o seu anjo e o seu demónio.

No entanto, os seus olhos desviaram-se para todos os alters femininos.

Os que te conheciam aos sábados.

Os que te conheceram, e aos outros como tu, aos domingos.

Aqueles que te conheceram quando te sentavas ao nosso lado nos restaurantes, onde as acções das tuas mãos podiam ser escondidas de todos os outros.

Sabia que não eram todos, e por isso continuou a procurar.

Já tinhas transformado os confortantes frascos de perfume da nossa infância em vidro estilhaçado

Já tinhas transformado os sons reconfortantes dos relógios e da música em loucura e gritos.

Procurou possuir-nos a todos.

E quando não conseguiste encontrar aquela que tínhamos escondido de ti, aquela que ainda tinha esperança de recuperar a felicidade da nossa infância, mandaste quebrar os seus protectores.

Tínheis-nos quebrado até que aqueles que estavam sob o domínio da vossa mulher quase a ofereceram para que a tomásseis.

E levou-a, tal como levou o resto de nós.

Deixou-nos tão destroçados que já não podíamos cuidar de nós próprios.

Graças a tudo o que ainda existe de bom neste universo, não conseguiste quebrar a nossa preocupação com os outros, caso contrário poderíamos ter crescido para algo ainda pior do que o único companheiro de brincadeira com quem desejavas que fôssemos mais parecidos.

Só de pensar que, se tivesses conseguido quebrar-nos completamente e transformar-nos nas tuas leais Mord-Sith, teríamos atingido níveis de crueldade com que a Princesa dos Espinhos só poderia sonhar... esse pensamento aterroriza-me.

Fico contente por nunca terem conseguido quebrar a nossa empatia.

Foi a única coisa que nos impediu de atingir essas alturas.

As manhãs de domingo são uma lâmina de dois gumes para si, não são?

Afinal de contas, como é que tu, apesar de afirmares ser rei, podes ir contra a Regra de Ouro?

Não podias.

Afirmou que, obviamente, isso significava que deveríamos fazer com que se sentisse bem, uma vez que, GRACIOSAMENTE, também nos faria sentir bem.

Mas não nos fez sentir bem.

Fizeste-nos sentir dor.

Fizeste-nos sentir medo.

Fizeste-nos ter pavor de ti.

Não queria ser tratado da mesma forma que nós queríamos ser tratados.

E certamente não queríamos que mais ninguém fosse tratado da forma como estávamos a ser tratados.

Por isso, em vez disso, seguimos um caminho que foi... moderadamente encorajado por si.

Pelo menos, manteve o efeito exterior que desejava.

A inocência dos serafins estava a desvanecer-se.

Esse teu demónio tentador decidiu pegar no poder que lhe foi dado - o poder do título do próprio Lúcifer, embora esse título não nos tenha sido dado por ti, pela "capacidade de tentar até o mais soberanamente devoto para a maldade" - e usá-lo para ajudar os outros.

Chamamos por vós e pelos da vossa espécie, para desviar as vossas atenções dos outros.

E faríamos tudo o que pudéssemos para manter essas atenções, para que outros pudessem ter descanso.

Bem, o tempo para que tudo isso acabe já passou há muito tempo.

Já não sois um rei perante o qual nos curvaremos.

Nunca foste.

Eras, e és, um pervertido da mais alta consideração.

E aguardo com expetativa o dia em que receberás toda a justiça que mereces, mesmo que isso acabe por não acontecer nesta vida.

-Escrito principalmente por Lenore e Lúcifer, mas também por Daniel/Gabriel e "Alex"

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