Não tenho um corpo, mas tenho cores

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C'um caraças, como é que temos 30 anos?

A última coisa de que me lembro é que estávamos a correr; em direção a um objetivo claro e longe de perder os desejos do nosso coração para o nevoeiro. Escrever, desenhar, planear, pensar.

E depois parámos.

Tivemos de hibernar, apesar de eu ter medo de nunca mais voltar a acordar. É como entrar no Matrix e ter a memória apagada. Tudo o que éramos - tudo o que realmente significava algo para nós - desaparece. Porque sempre que nos começamos a lembrar de quem somos, mudamos. 

Como é que ainda estou intacto? 

Ou será que estou?

Ainda não consigo pensar, mas sei que sou... eu. O que é vago e inquietante, mas também tranquilizador. Se sei que sou "eu", então estou pelo menos a aproximar-me do meu nome, dos meus objectivos, das minhas memórias.

Não tenho estado adormecido. Tenho estado enevoado. Tenho estado em piloto automático, incapaz de aceder à minha própria mente.

Portanto, conheço esta casa. Conheço o nosso trabalho. Conheço todas as coisas práticas. Porque já cá estive. Alguém simplesmente... arrancou os fios entre a minha consciência e as minhas memórias/propósito/objectivos/eu próprio. E agora... eu sei que sou uma pessoa. Não estou a sonhar como um sonâmbulo. Ainda não consigo aceder exatamente às minhas memórias, mas há cores. Sentimentos por detrás de vidro fosco.

Não posso acreditar que estou vivo. Não posso acreditar que sou real. 

Estava a começar a esquecer-me que era uma pessoa, mas parece que estou intacta.

-?

Isto é estranho. 

Desde que Lothair começou a recuperar o seu cérebro, a clareza no mundo interior atingiu outro nível. Eu posso... me ver. Vagamente. Mas as cores estão lá, e não estavam antes.

Já não sou um recorte de papel.

Também ainda não sei quem sou, mas sou... uma pessoa. Talvez nunca me sinta humana - se os "adultos" são humanos, então eu não quero ser. Mas eu sou... eu. Tenho um eu completo, algures. Não o consigo ver, mas consigo senti-lo.

-?

Há muitos de nós aqui. Toda a gente me parece familiar, mas não consigo associar nomes ou acontecimentos às cores. Ainda assim, sinto-me seguro, familiar: em casa.

Pensei que nos íamos perder um ao outro para sempre e fiquei aterrorizada.

Pensava que quando entrávamos em hibernação nunca mais voltávamos a acordar.

Pensei que se não restasse ninguém para se lembrar da nossa existência, desintegrar-nos-íamos no vazio da cave da nossa própria mente. 

Mas nós estamos aqui. De alguma forma. Alguém do mundo interior lembrou-se de nós sem desistir ou partir, de alguma forma.

Tinha a certeza de que o abandono da auto-consciência seria permanente. 

Eu estava preparado para a liquefação eterna.

Mas eu estou aqui.

-?

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Os fractais da noite
3 meses atrás

<3 Adoramos-vos a todos
-Wolfsbane

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