Blogue T-E-C, por volta de 2004

Os blogues podem incluir conteúdos sensíveis ou desencadeadores. Aconselha-se a discrição do leitor.

Fala Saoirse. Hoje vou tirar o dia de folga do trabalho porque, sim, estou um bocado confusa. Falarei sobre isso noutro post do blogue. Quero falar de uma coisa que descobri hoje. Tivemos um blogue na Internet de abril a junho de 2004! Tinha-me esquecido completamente dele. Graças à magia do Arquivo da Internettenho estado a ler os nossos pensamentos de há 20 anos atrás. Uau, éramos muito confusos. Não vou publicar a hiperligação direta para o arquivo do blogue antigo porque é extremamente desencadeante. Não nos contivemos. Falámos de suicídio, de nos cortarmos, de memórias de abusos, meu, está tudo lá. É um pouco assustador que ainda esteja na Internet.

Que isto sirva de lição: quando se coloca algo online, fica lá para sempre, mesmo que se retire.

Mas é interessante, porque eu não tinha o vocabulário que tenho agora. Na altura não havia diferença entre fusão e integração. Não tinha conhecimento destas coisas chamadas "subsistemas". Em vez disso, falava dos nossos "clãs". E eu que pensava que a Janet era muito rígida em relação a ter DID hoje em dia, vejam isto:

Não quero lidar com isto, não quero lidar com isto, não quero lidar com isto, não quero lidar com isto, não quero lidar com isto. Não quero lidar com isto!!!! Porque é que isto não pode parar! Porque é que isto não pode simplesmente desaparecer? Porque é que o Dr. Cohen não pode simplesmente dizer - cala-te, estás a mentir, não existe tal coisa! Não consigo lidar com isto. Não sei como lidar com isto. Não sei como lidar com isto. O que é que eu devo fazer? Estou tão confusa. Tenho tanto medo. Queria que isto tivesse acabado. Queria que isto nunca tivesse existido. Porque é que eu tinha de fazer aquele maldito desafio no gravador?! Era suposto mostrar que eu sempre fui apenas eu, e que ninguém poderia responder. PORQUE é que tenho uma cassete que tem três versões diferentes de mim para além de MIM? AAAAAAAAAAAAAAA. Quer dizer, eu devo estar mesmo lixado. Porque é que eu invento estas coisas? Quer dizer, eu tenho que estar a inventar. Não pode ser real. Porque é que eu faria isto a mim próprio? Não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo, não entendo. Não consigo aguentar isto. E nem sequer tenho sido capaz de falar com o Dr. Cohen sobre isto, porque outra parte de mim tem andado a reagir. PORQUÊ?! Não sei se consigo aguentar isto. De certa forma, queria que a Dra. Cohen soubesse para me dizer que estou a mentir ou para me dar um comprimido ou assim. Porque é que ela não pode fazer isso? Eu não quero isto! Não quero isto de todo!!! Sinto que o meu mundo está a desmoronar-se. Isto não pode ser real. E se for, o que é que eu faço? Estou tão abalada com isto que nem consigo funcionar. PORQUE É QUE ISTO TINHA DE VIR AO DE CIMA? Porque é que isto não podia ficar em segredo, algo que ninguém tinha de saber? Não sei o que fazer. Não consigo aceitar isto. Sei que me foi diagnosticado um distúrbio dissociativo há 10 anos, mas recuso-me a acreditar que estava correto. Na altura tinha de estar a inventar tudo e agora devo estar a fazer o mesmo. Quero que isto pare! Quero que tudo isto desapareça. Não quero falar com outras versões de mim. Não quero lidar com elas. Não quero que elas existam!!! Só quero ser eu. É isso, apenas eu. Só existe uma personalidade verdadeira por corpo, certo? O resto deve ser falso. Não pode estar a acontecer de verdade. Porque é que eu vivo assim? Porque é que o tempo salta para mim como salta? Estou tão confuso. Não quero isto de maneira nenhuma!!! Porque é que não pode haver outra explicação? Tem de haver outra explicação. POR FAVOR, DEUS, QUE HAJA OUTRA EXPLICAÇÃO. Eu só quero a minha vida normal de volta. É só isso que eu quero. Uma vida normal. Sem depressão. Sem historial de abusos. Sem outras pessoas dentro de mim. Só quero ser normal. É só isso que eu quero. Não quero mais nada disso. Não sei como lidar com isto. É ótimo que estas outras partes de mim estejam a sentir-se tão maravilhosamente livres ou algo assim, mas SINTO QUE ESTOU A PERDER A MINHA MENTE. Não, retiro o que disse, parece que a perdi. Não quero saber destas coisas. Porque é que não pode desaparecer tudo? Não pode ser real de qualquer maneira. Porque é que não posso simplesmente ignorar? Porque é que vocês não se vão embora? Eu não quero falar convosco. Não quero que me deixem recados. Não quero que me deixem mensagens. Não vos quero na minha vida! É a MINHA VIDA. MINHA. Não há lugar para ti aqui. VAI-TE EMBORA.

postado por Janet em Sábado, 10 de abril de 2004

Acreditem ou não, este é o registo calmo que ela fez nesse dia. Isto foi na altura em que nos foi diagnosticada a DID pela terceira vez. Obviamente, ela não estava a lidar bem com isso. 🙂

O que me interessa é que, nessa altura, eu controlava melhor a minha raiva. Hoje em dia, tenho dificuldade em deixar-me sentir. De facto, é uma das coisas que estou a processar hoje. Mas nessa altura, era assim que me motivava para ganhar mais de $100.000/ano pela primeira vez.

Hoje, valorizo muito a dádiva que a minha raiva e, sim, a minha fúria, me deram. Muitas vezes, é o que me faz levantar de manhã. É o fogo que arde dentro de mim que me motiva a melhorar-me. A minha forma de vingança é ser tão bem sucedido quanto possível. É realmente um caso de "FUCK YOU! I AM VALE ALGUMA COISA. I DO TÊM O DIREITO DE EXISTIR! E EU WILL FAZER ALGO DA MINHA VIDA!" Quando sinto que não consigo continuar, é a minha RAIVA que me motiva a continuar. Ela alimenta a chama interior da minha Vontade. É realmente um fator de motivação primordial na minha vida

excerto de um post de Saoirse na terça-feira, 13 de abril de 2004

Finalmente, a grande coisa que está a acontecer na terra do T-E-C nestes dias é que a Susan está completamente acordada outra vez. Tinha-me esquecido que ela costumava escrever poesia. Este é um poema dela do blogue de 2004:

mamã, já não posso ser a tua menina
não sei dizer porquê

mamã, a última pessoa que tive, a minha única amiga
fez-me fazer uma coisa má

Mamã, desculpa. Já não posso ser a tua menina
não sei dizer porquê

Agora estou sujo. Não valho nada. Nem sequer o consegui fazer bem.
lamento não poder continuar a ser a tua menina

Mamã, eu sei que estás triste. Vejo isso todos os dias.
Eu sei que a culpa é minha. O papá diz-me isso.

por isso não serei mais a tua menina.
Eu não mereço uma mamã de qualquer maneira.

excerto de um post de Susan na quinta-feira, 15 de abril de 2004

Obrigado por me acompanharem ao longo do caminho da memória!

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários
Saltar para o conteúdo